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Referências: KM# 330; Gaed# 733
Anverso: Valor facial disposto ao centro em três linhas, ladeado por ramos ornamentais. Abaixo aparece o pequeno brasão da cidade de Hamburgo, com seu tradicional castelo de três torres. As iniciais IR integram a composição. Na borda encontram-se a identificação de Hamburgo e a data de emissão.
BURGER 1702 HAM
4
SCHIL
LING
IR
Reverso: Águia imperial bicéfala coroada, símbolo do Sacro Império Romano-Germânico, trazendo ao peito o globo imperial com a indicação do valor 4. Nas garras encontram-se cetro e espada. Ao redor aparece a titulatura latina do imperador Leopoldo I.
LEOPOLDUS.D.G.ROMA.IMP:SEMP:AU
O valor aparece de maneira bastante direta no centro do anverso:
4
SCHIL
LING
Os Schilling eram importantes moedas divisionárias utilizadas no sistema monetário de Hamburgo e em outras regiões do norte da Europa.
Ao contrário das grandes moedas de prata destinadas a pagamentos de maior vulto, peças como esta pertenciam à circulação cotidiana de uma cidade profundamente ligada ao comércio.
Com apenas 21 mm de diâmetro e menos de 1 mm de espessura, esta pequena moeda de prata circulou em uma das cidades mercantis mais importantes da Europa no início do século XVIII.
Hamburgo desenvolveu-se durante séculos como uma cidade de forte autonomia política e econômica dentro do complexo mundo dos estados germânicos.
Sua localização às margens do rio Elba proporcionava acesso ao Mar do Norte e transformava a cidade em um elo estratégico entre as rotas marítimas e o interior da Europa.
Hamburgo possuía governo urbano próprio, intensa atividade comercial e tradição monetária independente.
Essa identidade permanece até os dias atuais no nome oficial Freie und Hansestadt Hamburg – Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo.
A denominação Hanseática remete à antiga Liga Hanseática, poderosa rede de cidades mercantis que controlou durante séculos importantes rotas comerciais do Mar do Norte e do Mar Báltico.
Hamburgo foi um de seus principais centros, estabelecendo relações comerciais com cidades das atuais Alemanha, Países Baixos, Escandinávia, países bálticos, Polônia, Rússia e Inglaterra.
Mesmo quando a Liga perdeu grande parte de sua antiga influência política, sua tradição comercial permaneceu profundamente incorporada à identidade de Hamburgo.
Em Hamburgo, a palavra “Hanseática” não é apenas uma referência histórica: continua fazendo parte do nome oficial da cidade mais de três séculos depois da emissão desta moeda.
Leopoldo I (1640–1705), cuja titulatura aparece no reverso, foi Imperador do Sacro Império Romano-Germânico entre 1658 e 1705.
Seu longo reinado atravessou um período de constantes conflitos europeus e de forte expansão do poder da monarquia dos Habsburgo.
Leopoldo enfrentou o Império Otomano, participou das grandes disputas envolvendo a França de Luís XIV e governou durante o início da Guerra da Sucessão Espanhola.
Quando este 4 Schilling foi cunhado, em 1702, Leopoldo já ocupava o trono imperial havia mais de quatro décadas.
A moeda apresenta uma combinação particularmente interessante de símbolos políticos.
No anverso, aparecem a identidade própria de Hamburgo, seu brasão e a denominação monetária local.
No reverso, entretanto, encontra-se a águia bicéfala imperial acompanhada pela titulatura de Leopoldo I.
Essa combinação representa perfeitamente a estrutura do Sacro Império Romano-Germânico: centenas de estados, cidades, principados e outros territórios possuíam considerável autonomia, mas reconheciam formalmente a autoridade imperial.
A moeda reúne em apenas dois lados a autonomia de Hamburgo e sua integração ao Sacro Império: de um lado, a cidade e sua moeda; do outro, a águia e o imperador.
A águia bicéfala foi um dos grandes símbolos do Sacro Império Romano-Germânico.
As duas cabeças coroadas e os atributos imperiais simbolizavam a autoridade do imperador e a continuidade de uma tradição política que remontava à Idade Média.
Nesta emissão, a águia segura cetro e espada, enquanto sobre seu peito encontra-se o globo imperial contendo a indicação do valor facial.
Esse recurso permitia associar diretamente o valor monetário à iconografia imperial.
Na parte inferior do anverso encontra-se o pequeno brasão de Hamburgo, formado pelo tradicional castelo de três torres.
O motivo representa simbolicamente a cidade fortificada e constitui um dos emblemas urbanos mais antigos ainda em utilização na Alemanha.
Embora pequeno nesta denominação, o castelo permite identificar imediatamente a origem hamburguense da moeda.
As iniciais IR correspondem a Joachim Rustmeyer, Mestre da Casa da Moeda de Hamburgo entre 1692 e 1724.
Sua marca monetária aparece em diversas emissões de Hamburgo do período, identificando moedas produzidas durante sua administração na oficina monetária da cidade.
Neste exemplar de 1702, as iniciais IR identificam diretamente a atuação de Rustmeyer como mestre da Casa da Moeda.
As iniciais IR identificam Joachim Rustmeyer, Mestre da Casa da Moeda de Hamburgo entre 1692 e 1724.
O ano de 1702 situa-se no início da Guerra da Sucessão Espanhola, um dos grandes conflitos europeus do início do século XVIII.
A morte do rei Carlos II da Espanha sem descendentes diretos desencadeou uma enorme disputa entre as principais dinastias europeias pelo controle da sucessão espanhola.
Leopoldo I defendia os interesses dos Habsburgo austríacos, enquanto Luís XIV da França apoiava a candidatura de seu neto Filipe de Bourbon.
O conflito envolveria grande parte das potências europeias e continuaria por mais de uma década.
Enquanto esta pequena moeda circulava entre comerciantes de Hamburgo, a Europa entrava em uma guerra dinástica de enormes proporções que redefiniria o equilíbrio de poder do continente.
Em 1702, a Alemanha moderna ainda não existia.
O território germânico encontrava-se dividido em numerosos estados que integravam o Sacro Império Romano-Germânico, incluindo reinos, principados, ducados, bispados e cidades livres.
Hamburgo prosperava nesse ambiente graças ao comércio marítimo e à sua capacidade de manter relações econômicas muito além das fronteiras políticas imediatas.
Suas moedas são, por isso, documentos particularmente interessantes da combinação entre autonomia urbana, comércio internacional e estrutura imperial.
Cunhado em Hamburgo em 1702, este 4 Schilling de prata reúne a autonomia comercial da Cidade Livre Hanseática e a autoridade do Sacro Império Romano-Germânico. O pequeno castelo hamburguês, a marca IR, a águia bicéfala e a titulatura de Leopoldo I preservam em apenas 21 mm um retrato da complexa Europa germânica do início do século XVIII.
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